A nossa sociedade está alicerçada no que é virtual

Uma das meias verdades mais repetidas é a de que o nosso tempo não tem estadistas, políticos a sério, gente que valha a pena. A questão não é a de sermos injustos, apenas a de sermos ingénuos. É que o assunto é bem mais grave. Já não passa por pessoas, mas pela impossibilidade de qualquer um poder ser realmente decisivo, de alguém ter efectivo poder, de decidir pela sua cabeça ou convicção. Neste novo mundo a soberania é apenas um conceito histórico. Os políticos eleitos são um vértice de vários outros poderes. Por mais inteligentes, corajosos e criativos serão sempre esmagados pela realidade. A política morreu e, aparentemente, só uma catástrofe poderá roubá-la ao sepulcro.

Trocando por miudezas, o problema não é julgarmos Passos Coelho ou Seguro incomparáveis com as grandes figuras do passado, o problema é que qualquer uma dessas personagens maiores, com maior ou menor brilhantismo retórico e firmeza de carácter, não alteraria um parágrafo ao caminho do país - com boa vontade acrescentaria um ponto e vírgula e algum capital de credibilidade. Não é tão-pouco assim, mas é de menos para o que necessitávamos.

A nossa sociedade está alicerçada no que é virtual. Em números, programas informáticos, cotações de bolsa que decidem se os empregos duram mais um mês se um ano. Se o dinheiro de que não conhecemos a origem fosse retirado do sistema financeiro ('lavagem' proveniente do tráfico de droga, armas e corrupções), o mundo tal como o conhecemos desmoronava-se e com ele o que resta de médias e pequenas empresas, assim como o instável equilíbrio económico da generalidade dos países. A ideia de progresso é sustentada por uma iniquidade sem paralelo em nenhum momento da História; fazemos por esquecê-lo, o que talvez seja o melhor. Não é fácil saber que o nosso bem-estar, o que dele nos resta, está dependente do dinheiro que é injectado no sistema por traficantes e cangalheiros morais. 

Mas este tempo não ajuda…

Um tempo em que deixámos de namorar de janela para janela. Para o bem e para o mal, substituímos o restaurante demorado por um fast food onde até o coração se trata com rapidez - casamentos ou namoros organizam-se na hora e sem ritual especial, é pegar ou largar, uma desburocratização de alma que aligeira e seduz. Descasamos com a mesma facilidade com que assinamos um papel (já nem precisamos de testemunhas). De namoros nem se fala, é coisa da 'outra senhora'. Os nossos filhos já não namoram, andam. Nunca um verbo foi tão bem achado. Tal e qual como as ideias. Já não selamos pactos com elas. Andamos com elas por uma trela, temos para a troca. Andem e sejam felizes. Logo se verá o depois.

Luís Osório
excerto da crónica no semanário Sol: No Governo há um homem-bala

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