As pessoas que me inspiram são gente comum, daquela que todos os dias leva os filhos à escola e gosta de pão com manteiga. Gente simples, mas com artes, que faz magia ao converter em suficiente o quase nada. Gente que troca a abundância regada a lágrimas e a bom vinho pela escassez de um brilho nos olhos e do peito leve pela manhã.
Há gente do caraças, e anda por aí, anónima e na fila do multibanco, seis números à nossa frente na peixaria do supermercado e sem trocos para a máquina do metro. Gente que só chora amanhã, que só se queixa amanhã, que só odeia amanhã, porque hoje não tem tempo, nem vontade, nem sentido.
(...)
Não lhes damos o devido valor, mas, quando paramos para ouvir as suas histórias, aprendemos que não há maior vitória que a de continuar a ser gente quanto tudo nos quer desumanizar – e que a gratidão, mais do que um estado de alma, é uma forma de vida. A gratidão de sermos o melhor que podemos com todos os recursos que temos, em nome de um deus interior que não conhece maior mantra que o de dizer: “eu fiz, eu consegui, eu sou”.
Elisabete Melo Coutinho
Artigo completo disponível em: http://mariacapaz.pt/cronicas/ha-gente-do-caracas-por-elisabete-melo-coutinho/

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