Do Teatro, para sermos ombros
No dia Mundial do
Teatro fui com os meus pais ao Teatro, ver a peça “Pequenos
Delitos”. Rimos da morte. Da perspectiva ridícula que às vezes tem, por ser tão
cruel. Por às vezes contornos tão ridículos originarem algo tão cruel. Não digo que a morte em
si seja cruel, falo do que a envolve.
Naturalmente, e é mesmo naturalmente,
existe um ciclo. Mas só depois do nascimento do Vicente senti que estava mais
perto desse ciclo do que costumava pensá-lo. Antes era exterior a mim, apesar
de saber fazer parte dele e de todos os que existem. Na semana em que o Vicente
nasceu, soube de duas mortes. Duas mães. Dois filhos que ficaram sem a sua mãe.
E uma mãe que conheceu o seu filho. A história que os une, mesmo que não se
conheçam, é a imprevisibilidade e, também, a inevitabilidade. E destes dois
significados surge o para sempre. Este conjunto infinito de pontos que, tal
como a vida, chamamos circunferência. E por isso todas as histórias se unem, e
se as histórias são com as pessoas, todas as pessoas se unem. E reúnem histórias.
Ainda do teatro,
designado nesse dia de “ginásio das emoções” por Carlos Fragueiro, falou-nos de
uma peça chamada A Instalação do Medo. Este medo mesquinho que nos sobrevoa. E
também dessa peça ter sido encenada por Jorge Listopad, de 92 anos. Com 92 anos
ter trazido o que já não tem, esse medo. E ter arriscado ao (tentar) desconstruí-lo para os outros. E é o que precisamos, para conseguirmos estar
mais perto do que somos. Para voltarmos ao que somos.
E depois do não medo, a
verdade, trazida por Jorge Fraga. O que podemos ser de melhor, de nós e para
nós, é a verdade. E ao sermos o melhor de nós e para nós, nunca somos só de nós
nem para nós, porque somos prolongamentos de outros, porque prolongamos outros.
Uma verdade informal, porque só juntando verdade e informalidade conseguimos olhar
e receber todos por igual. Porque é igual que somos. Relembram-me as palavras
de Saramago: “Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu fizeram-no de
carne e sangra todo dia.”
E deste coração que o
Saramago fala, vou buscar as palavras da fragilidade. Frágil de sensível e de
humano: que de frágil só de bonito conhece. E acolhe. Traz quente para dentro,
para dentro dos avessos. Que os vidros partem e quebram. Quebramos nós,
cobertos de vidro. Do vidro de quem se encosta. Antes o ombro, de quem se
encosta. E que se encoste frágil. Para sermos ombros.

Nenhum comentário:
Postar um comentário