Do discurso de Alexandra Lucas Coelho
que recebeu o prémio de Associação Portuguesa de Escritores, com o romance "E a Noite Roda"
O que me interessa no romance não é o género, mas a ausência de
género. Não é poesia e pode ser poesia, não é reportagem e pode ser reportagem,
não é viagem e pode ser viagem, não é teatro, cinema, música, arquitectura,
agricultura, cosmogonia, correspondência, folhetim, banda desenhada, arquivo, e
pode ser tudo isso. Um romance é a liberdade em extensão. Um território de
experimentação com um fôlego considerável, que ninguém conseguiu ainda
circunscrever além disto: prosa, criativa, de extensão longa, escrita para ser
lida.
Na verdade, neste campo, quanto à criação, não há outro lema em
que me reconheça tanto: que cada um faça a sua coisa. Faça o que tem a fazer,
contra tudo, contra todos: crime e castigo, doença e cura, transmigração da
alma ou biografia derradeira.
E a Noite Roda não é sequer o melhor
romance que eu podia ter escrito entre 2010 e 2011, os meus últimos meses em
Portugal e o meu primeiro ano no Brasil. Não foi, certamente, o que muita gente
achava que eu devia ter feito. É apenas o que eu precisava de fazer naquele momento
para sair do ponto em que estava. O importante não será fazer o melhor que
sabemos, mas o que precisamos de fazer, mesmo não sabendo, para sair do nosso
limite. Aquilo que nos desloca se estamos fixos, que nos fixa se estamos
deslocados.
Ninguém pergunta a um poeta se o que está no poema é real ou
ficção. Aquilo é o que é, é dentro da cabeça dele. O que cada um vive é seu património inalienável, seu único real
património, e é seu direito fazer disso o que quiser, na intersecção com os
outros e o mundo, tendo como único limite, para mim, não devassar o património
de um outro, de forma reconhecível publicamente.
Nenhuma arte é panfleto, se é panfleto, não era arte. Ao mesmo
tempo, toda a arte é política, no sentido em que não existe sem um outro, que
pode ser apenas um. O determinante não é que sejam muitos, mas que exista uma
relação. Que algo actue entre um e outro.
Este livro é político, como todos os que fiz, como tudo o que
faço, pelo simples facto de me pôr em relação com outros. Estar aqui hoje é
político, falar em público é político. Onde há um colectivo há política.
Nada estranho, pois, que este Presidente se faça representar na
entrega de um prémio literário. Este mundo não é do seu reino. Estamos no mesmo
país, mas o meu país não é o seu país. No país que tenho na cabeça não se anda
com a cabeça entre as orelhas, “e cá vamos indo, se deus quiser”. Não sou crente, portanto acho que depende de nós mais do que
irmos indo, sempre acima das nossas possibilidades para o tecto ficar mais alto
em vez de mais baixo. Para claustrofobia já nos basta estarmos vivos, sermos
seres para a morte, que somos, que somos.
Partimos então do zero, sabendo que chegaremos a zero, e pelo
meio tudo é ganho, porque só a perda é certa.
Não devo nada ao Governo português no poder. Mas devo muito aos
poetas, aos agricultores, ao Rui Horta, que levou o mundo para Montemor-o-Novo,
à Bárbara Bulhosa, que fez a editora em que todos nós, seus autores, queremos
estar, em cumplicidade e entrega, num mercado cada vez mais hostil, com margens
canibais.
Os actuais governantes podem achar que o trabalho deles não é
ouvir isto, mas o trabalho deles não é outro se não ouvir isto. Foi para ouvir
isto, o que as pessoas têm a dizer, que foram eleitos, embora não por mim.
Cargo público não é prémio, é compromisso.
Portugal talvez não viva 100 anos, talvez o planeta não viva 100
anos, tudo corre para acabar, sabemos. Mas enquanto isso estamos vivos, não
somos sobreviventes.
Texto na íntegra, disponível em:
http://www.publico.pt/cultura/noticia/discurso-alexandra-lucas-coelho-1631449
http://www.publico.pt/cultura/noticia/discurso-alexandra-lucas-coelho-1631449
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