A ilha desconhecida
E não lhes falaste da ilha desconhecida,
Como poderia falar-lhes eu duma ilha desconhecida, se não a conheço,
Mas tens a certeza de que ela existe,
Tanta como a de ser tenebroso o mar,
Neste momento, visto daqui, com aquela água cor de jade e o céu como um incêndio, de tenebroso não lhe encontro nada,
É uma ilusão tua, também as ilhas às vezes parece que flutuam sobre as águas, e não é verdade,
Que pensas fazer, se te falta a tripulação,
Ainda não sei,
Podíamos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que vêm à doca, e tu,
E eu,
Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz,
Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver,
Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas,
Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós,
Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer,
Não é a mesma coisa.
(...)
Sempre tive a ideia de que para a navegação só há dois mestres verdadeiros, um que é o mar, o outro que é o barco,
E o céu, estás a esquecer-te do céu,
Sim, claro, o céu, Os ventos, As nuvens, O céu, Sim, o céu.
Como poderia falar-lhes eu duma ilha desconhecida, se não a conheço,
Mas tens a certeza de que ela existe,
Tanta como a de ser tenebroso o mar,
Neste momento, visto daqui, com aquela água cor de jade e o céu como um incêndio, de tenebroso não lhe encontro nada,
É uma ilusão tua, também as ilhas às vezes parece que flutuam sobre as águas, e não é verdade,
Que pensas fazer, se te falta a tripulação,
Ainda não sei,
Podíamos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que vêm à doca, e tu,
E eu,
Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz,
Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver,
Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas,
Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós,
Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer,
Não é a mesma coisa.
(...)
Sempre tive a ideia de que para a navegação só há dois mestres verdadeiros, um que é o mar, o outro que é o barco,
E o céu, estás a esquecer-te do céu,
Sim, claro, o céu, Os ventos, As nuvens, O céu, Sim, o céu.
José Saramago,
excertos do conto: A ilha desconhecida
excertos do conto: A ilha desconhecida
Nenhum comentário:
Postar um comentário