Já tenho saudades

Cada vez mais se aproxima o tempo da felicidade vivida da saudade dela. Não só já tenho saudades de ontem, porque já passou, como começo a ter saudades das coisas enquanto estão a acontecer, por saber que vão acabar e ser capaz, sem querer, de pressentir as saudades que vou ter daqueles momentos, enquanto conseguir continuar a lembrar-me deles.

Um momento sem angústia, sem impossibilidade ou sem sacrifício (ou sem a dor não só de existir como a de estar cá, como corpo fisicamente doloroso) parece-se cada vez mais com a alegria.

É por esta razão que Scopenhauer é uma paixão da juventude. O prazer não é a ausência da dor. O prazer é um prazer que contém a tristeza e a dor de um dia acabar. A vida dói não porque acaba mas porque continua.

Ainda está a acontecer e já tenho saudades: as coisas e as saudades acontecem porque podem e ocupam o lugar da vida, da razão e do pensamento. Para não falar no sentimento que, ao contrário do que se espera e quer, impera sempre e prevalece.

A tristeza está tão próxima da alegria como a vida está da morte imaginada. Vivemos. Morremos. É pena que estes dois verbos estejam associados.


Miguel Esteves Cardoso,
Excertos da Crónica do Público, 2-2-2014



Do filme: El Espiritu de la Colmena


            





Nenhum comentário:

Postar um comentário